As plantas companheiras são a chave para assegurar o cultivo de alimentos
Se tu crias um ambiente equilibrado, é possível ter terra fértil, produção de alimentos, controlo de pragas e água, muita água
Ernest Götsch
A ONU classifica metade das terras agrícolas do mundo como degradadas. Combine populações em expansão, recursos terrestres limitados e padrões climáticos erráticos e terá a tempestade perfeita para minar a segurança na produção de alimentos. É o que o último relatório do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change) chama de “risco” para a humanidade.
A degradação do solo está a reduzir a capacidade do planeta de nos sustentar. Em breve, não haverá terra fértil suficiente para cultivar a comida que nós e nossos filhos precisamos.
“Como aconteceu isto?” Eu o ouço perguntar…
Imagine um campo de milho. Coroas douradas e caules verdes erguidas. Milhares de plantas idênticas ao longo de quilómetros. Pode parecer suficientemente saudável, mas este sistema de monocultura, plantar uma única espécie, afeta severamente as terras agrícolas.

As plantas de milho são idênticas. Cada planta individual está em competição direta com suas companheiras, por recursos. Suas copas lutam umas com as outras para absorver a luz do sol enquanto, abaixo do solo, suas raízes lutam para absorver nutrientes. A uniformidade de um campo de milho facilita a propagação de pragas e parasitas. Se alguns bichos famintos chegarem, haverá um banquete na frente deles.
Tal sistema depende de produtos químicos para fazer as colheitas crescerem e com o tempo, isto degrada a terra. Solos férteis estão a ser perdidos 100 vezes mais rápido do que o esperado e a desertificação cresce a cada ano. Temos que começar a cultivar de forma mais inteligente.
Cultivar à imagem da natureza
Agora imagine uma floresta: todos os tipos de espécies de plantas a crescer no que parece ser uma confusão. À primeira vista, as árvores, arbustos e plantas estão em uma grande competição por luz e recursos. Algumas, estão. Mas olhe de perto e verá que muitas das plantas estão em uma relação simbiótica.
Suas raízes se conectam no subsolo em um comércio entre elas, de troca de nutrientes – como todos os bons comerciantes, elas trazem diferentes “produtos para o mercado”. E à medida que as folhas caem e as plantas morrem, elas se transformam em solo rico para adicionar a um sistema autossustentável. O poder de uma floresta está na diversidade de suas espécies vegetais.

Os agricultores podem aumentar os rendimentos e melhorar a resiliência dos alimentos cultivados, quando observam as lições da natureza. A agricultura não precisa depender de produtos químicos, em vez disto, podemos optar por cultivar à imagem da natureza. Este método, na sua forma mais simples, é conhecido como Plantação de Companheiras.
Plantação de Companheiras
A plantação de companheiras combina duas ou mais espécies de plantas em um sistema agrícola. Ao selecionar as espécies certas para cultivar juntas, aproveita-se as habilidades que elas oferecem. Algumas plantas absorvem nitrogênio da atmosfera e fertilizam o solo em um processo chamado de “fixação de nitrogênio”. Outras bloqueiam a luz do sol com suas folhas grandes para evitar o crescimento de ervas daninhas e permitir que o solo retenha a humidade.

A consorciação evita que as pragas se instalem: cultivar aipo com couve-flor desencoraja a traça do repolho branco; a borragem, uma erva conhecida como flor-da-estrela, impede as minhocas de atacar os morangos enquanto atraem as abelhas. Assim como uma floresta, a força do plantio de companheiras está na sua diversidade.
As plantas crescem a várias alturas para captar a luz em diferentes ângulos e suas raízes utilizam água e nutrientes em diferentes profundidades. Com o plantio de companheiras, espécies diferentes ocupam o mesmo espaço, sem atrapalhar umas às outras.
O plantio de companheiras é usado tanto pelo jardineiro amador quanto na vanguarda da inovação agrícola. Mas não é algo novo; as técnicas mais famosas de plantio de companheiras, já tem sido desenvolvidas há 4.000 anos.
As Três Irmãs: uma parceria antiga
Os primeiros agricultores americanos compreenderam o poder de cultivar diversidades de plantas. Através da observação e experimentação, esses antigos agricultores cultivavam três alimentos básicos: abóbora, feijão e milho em um sistema conhecido como as Três Irmãs.
Mas como três plantas diferentes se beneficiam em uma parceria simples e eficaz? Vamos começar de baixo.
A abóbora se espalha pelo chão com folhas grandes; bloqueando a luz solar e impedindo o crescimento de ervas daninhas. As folhas de sombreamento criam um clima fresco que aumenta os solos saudáveis. Mas isso não é tudo – ao longo do caule, uma abóbora tem pêlos espinhosos, perfeitos para manter as pragas afastadas.
O milho eleva-se acima das folhas da abóbora e fora da competição. A haste alta fornece um “pólo natural”, perfeito para qualquer escalador. As vagens do feijão aproveitam o suporte e, enquanto crescem, absorvem nitrogênio da atmosfera e o fixam no solo, criando uma base rica e saudável para o sistema.

“As Três Irmãs” se espalharam pelas Américas. E à medida que novas culturas adotaram a técnica, desenvolveram uma mitologia sobre sua origem, com o tema comum de que as irmãs são mais fortes juntas do que separadas.
Ampliando o sistema: agricultura com árvores
O plantio de companheiras não se limita a vegetais e plantações, é mais eficaz quando dimensionado para o nível da árvore. Isso geralmente é chamado de agrofloresta e envolve o plantio de árvores e arbustos como limites ou linhas dentro dos sistemas de cultivo de alimentos. Simplificando: é cultivar com árvores. A aplicação do conhecimento correto sobre a interação entre cultivo de alimentos e árvores beneficia agricultores em todo o mundo.
Fábricas de fertilizantes
De acordo com a World Agroforestry, o solo pobre é o principal fator de insegurança na produção de alimentos. As árvores fertilizantes resolvem esse problema. Eles capturam nitrogênio do ar e o transferem para o solo através de suas raízes ou folhas caídas. Isso cria solos ricos em nutrientes e saudáveis, assim como um composto orgânico. Uma dessas árvores, a Faidherbia albida, é usada por produtores de milho em Malawi, Tanzânia e Zâmbia para duplicar os rendimentos. E como as árvores sempre produzem fertilizantes naturais, não há necessidade de gastar dinheiro com produtos químicos nocivos. Boa permuta!

A Faidherbia albida perde suas folhas no início da estação chuvosa para produzir fertilizante orgânico rico em nitrogênio, bem quando os agricultores cultivam suas plantações. E como as árvores já estarão sem folhas, não competem com a plantação, por nutrientes, água ou luz solar. Na estação seca, enquanto a maioria das árvores perde suas folhas, a Faidherbia refaz sua cobertura de folhas novas e proporciona sombra, abrigo e alimento essenciais.
Compartilhamento de nutrientes para aumentar a resiliência
Árvores e arbustos têm sistemas de raízes muito mais profundos do que as plantações. Isso traz água e nutrientes à superfície para serem compartilhados com as plantas próximas. Na África Ocidental, alguns arbustos resistentes são plantados ativamente lado a lado com o milheto. Pesquisas recentes mostram que isso aumenta a produção em 900% e reduz o plantio até a colheita em 15 dias. É uma parceria essencial para os agricultores onde a insegurança na produção alimentar e as secas são comuns.

Pesquisadores testam como o milheto cresce com arbustos. Um desses arbustos, Guiera senegalensis, traz água à superfície à noite e a libera no solo circundante.
Proteção contra os elementos
Nos trópicos, os agricultores aproveitam as temperaturas frias e os microclimas que as copas das árvores proporcionam. Cultivar na sombra melhora a qualidade do café e, na Indonésia, os agricultores relatam até 300% de melhora na produtividade ao cultivar vegetais sob as árvores. Em climas mais ventosos, as árvores são plantadas como quebra-ventos para evitar que as colheitas sejam derrubadas. E as árvores unem o solo, reduzindo os efeitos da erosão do solo e evitando deslizamentos de terra.

Um refúgio seguro para polinizadores
Trinta e cinco por cento das colheitas de alimentos do mundo dependem de polinizadores. Abelhas, borboletas e outros insetos e animais desempenham um papel importante em colocar comida na sua mesa. Mas a destruição do habitat e o uso generalizado de pesticidas levaram a um rápido declínio no número de polinizadores. É uma grande ameaça à produção de alimentos em todo o mundo.
As árvores são um local perfeito de paragem para estes ocupados polinizadores. Cada árvore individual tem por volta de 1.000 flores. Plantar uma diversidade de árvores, como Limoeiros, Sicômoros, Cerejas e Maçãs, leva à floração em meses diferentes. Fornecendo aos polinizadores um suprimento de néctar durante toda a estação de floração.

As plantas companheiras permitem que as plantações cresçam em todo o seu potencial. Mas se ainda não está convencido sobre o valor da agricultura com árvores, vamos dar uma olhada nos benefícios extraeconómicos.
Cultivando com árvores: diversificando a renda
Um produto florestal não-madeireiro é algo que se colhe de uma árvore sem cortá-la. Frutas e bagas são vendidas inteiras ou transformadas em produtos como geléia. A apicultura gera renda com a venda de mel e cera de abelha; criando meios de vida sustentáveis. Pode-se obter lenha, podando os galhos das árvores. E outros produtos como nozes, materiais de palha, corantes naturais, cogumelos e medicamentos, são todos colhidos das árvores.

Serviços de ecossistemas
As árvores armazenam carbono, melhoram a filtragem da água, reduzem a poluição do ar e promovem a biodiversidade: tudo isso é essencial para um ambiente saudável. Um ecossistema saudável pode fornecer uma variedade de serviços cruciais para bens públicos, é uma ideia inovadora para incentivar a proteção natural em herdades e florestas. Os agricultores podem ganhar ainda mais dinheiro com a manutenção e manejo das árvores.
Plantio de companheiras: poder na diversidade
Então, vamos nos afastar do conceito da agricultura como um sistema de clone-monocultura e abraçar o poder da diversidade das plantas. Quando cultivamos à imagem da natureza, podemos criar sistemas inteligentes de produção de alimentos que são autossustentáveis, regenerativos e resistentes à seca. E em uma era de populações crescentes, escassez de terras, incerteza climática e insegurança alimentar, a hora de começar é agora.
Fonte: https://www.renature.co/articles/companion-planting-is-key-to-food-security/
